Machado de Assis

Editora Penguin – Companhia das Letras

São Paulo/SP  – 2016 – 1ª Edição

392 páginas

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Outro livro difícil de comentar, afinal se trata de uma obra prima da literatura brasileira.

Machado é o maior escritor brasileiro, um fato que não podemos negar. E ponto.

Mas vamos por partes: este romance em particular é muito conhecido pois está na lista dos livros obrigatórios do ensino médio. Eu, por exemplo, aprendi que Machado faz parte do período realista da Literatura portuguesa.

Machado escreveu alguns romances românticos, influenciado pelo mestre José de Alencar, que admirava e respeitava, mas depois, encontra sua verve realista e embarca em romances frios, que traduziam um desejo da época de entender a psique, as nuances e os desejos de cada um, dentro da sociedade burguesa de então.

Um fato curioso, o autor fala da elite, apesar de ter uma história de pobreza e escravidão, já que seus avós paternos eram escravos alforriados.

Dom Casmurro já é um dos romances mais cultuados do Ocidente por tratar de uma inovação: não é sobre a traição de Capitu, mas sim sobre o ciume de Bento, ou Dom Casmurro, com essa pegada psicológica e tal.

Vamos a uma sinopse básica: Bentinho é um filhinho de mamãe, órfão de pai, rico e bem cuidado. A mãe fez promessa de que ele seria padre, mas ele tem uma melhor amiga, a vizinha linda e pobre. Os dois se apaixonam e lutam por este amor.

Mesmo assim, ele acaba indo para o seminário onde conhece seu melhor amigo,
Escobar. Consegue se livrar do seminário e vai viver seu grande amor, mas morre de ciumes da adorável e modesta esposa.

Parece um romance bonito e doce, né? Só que não.

Temos que lembrar que toda a história é narrada por Bento, e a expressão mais famosa do livro é sobre os “olhos de ressaca de Capitu”, então temos que ficar atentos ao “olhar” com que Bento analisa todas as situações.

A forma em que foi criado, com todos os desejos atendidos, a ausência de uma figura paterna forte. A riqueza que sempre facilitou seus caminhos, tornando o jovem Bento um homem fraco, que tem dificuldades para lutar pelo que quer.

E, em paralelo, temos Capitu, uma menina bonita e pobre, mas criada com graça e elegância. Forte, decidida e pronta para lutar pelo grande amor.

Fica claro ao longo do romance que as batalhas de Bento são sempre suavizadas pelo esforço de outros. Ele só descobre que ama Capitu porque ouve uma conversa entre a mãe e um agregado. Capitu, ao contrário, já sabe bem o que quer.

Ele é tão indeciso e mimado que acaba indo para o seminário porque não consegue convencer a mãe do contrário. E é lá que conhece Escobar, sendo este que acha a solução. E assim vai.

Tendo esta perspectiva fica mais difícil acreditar que Capitu pode ter traído o amado. Mas será?

Na verdade, não importa muito porque o interessante do livro é justamente essa dúvida pairando o tempo todo, e os dilemas de Bento. Não temos grandes dramas ou cenas violentas. Machado, assim como Jane Austen, nos dá uma aula magistral de como fazer suspense contando apenas as miudezas de um cotidiano banal.

O olhar de Bento é que traz a ressaca, e é nisso que temos que focar neste clássico incrível da literatura brasileira.

Se você, assim como eu, só leu este livro na adolescência e por obrigação, leia novamente, mas com os olhos mais críticos, mas também mais gentis, porque este vale a pena! Eu já li mais duas vezes! 🙂

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