IDÍLIO

Mário de Andrade

Capa: Cláudio Martins

Editora Itatiaia

Belo Horizonte/MG  – 2002 – 17ª Edição

DSCN1494.JPG

Não é exatamente esta edição, mas você consegue bem baratinho na Livraria Saraiva.

Sinopse básica: família de novos ricos que moram em Higienópolis, bairro chique de São Paulo, contratam jovem governanta alemã.

Detalhe: durante o dia, Fraulein ensina alemão e boas maneiras às meninas, e a noite, ensina o amor para o adolescente Carlos, o primogênito da família.

Afinal, é preciso instrui-lo nas artimanhas do sexo oposto para que não se perca com doenças e drogas, além de aprender a valorizar o casamento bem arranjado! Entre famílias “de bem”.

Lembramos aqui que o livro foi publicado em 1927 – sim! E até hoje permanece um tanto inacessível, ou melhor dizendo, pouco procurado, apesar de sua atualidade.

Calma que vou explicar.

Mas primeiro, um pouco de história: Mario de Andrade foi um dos artistas atuantes que manobrou e participou da Semana de Arte Moderna, em 1922, buscando um conceito e uma linguagem tipicamente brasileira, e via na linguagem coloquial a verdadeira língua ‘portuguesa’.

Seu livro mais conhecido – Macunaíma – coloca esta brasilidade no limite do impossível.

Mas neste romance em questão, mais do que Brasil, Mario traz filosofia especificamente alemã, com a qual teve contato ao começar a estudar alemão. Portanto, este livro traz muito da cultura alemã, seus filósofos, sua música, seu modo-de-ser-alemão. Inclusive fala da interação da comunidade alemã que veio para o Brasil fugindo das agruras da Primeira Guerra Mundial.

Posteriormente, o próprio Mario insere um adendo, repudiando o então em ascensão governante da Alemanha, Hitler.

Enfim. Vamos ao livro:

  • Primeiro ponto importante: o livro foi repudiado na época por estar em linguagem coloquial. Sim, mesmo o Narrador do livro, conversa com o leitor, inserindo palavras e expressões que, teoricamente, só funcionam no coloquial. Hoje isso é tão comum, que não vemos nada de novo, porém vamos lembrar, estamos em 1927.

Hoje é banal escrevermos como falamos, e nos expressarmos com os famosos coloquialismos. Naquela época, no entanto….

  • Fraulein é um personagem atemporal, e tal e qual Julieta ou Lady Macbeth, pode estar em qualquer lugar ou tempo. Ela se divide em duas, e quase corre o risco de se abrasileirar.

Veja bem, para entender isso, tem que ler o livro, mas o básico é: Fraulein exerce essa função de “amante” do jovem, mas justifica este desvio, por assim dizer, de forma filosófica, afinal tudo o que ela quer é ensinar como o amor deve ser, limpo, fresco, monótono até, mas cercado de razão e atitude.

Quer mostrar ao menino que ele deve seguir um quase roteiro e entender como a família, a esposa e os filhos vêm em primeiro lugar. Como a busca por prazeres rápidos pode ser perigosa. E principalmente, qual é a hierarquia da família, onde o menino será o ponto central de apoio das mulheres e demais.

Essa é a Fraulein-razão, que coloca a racionalização dos filósofos alemães em primeiro lugar.

Já a Fraulein-emoção trabalha tanto e organiza sua rotina para garantir um casamento futuro. Com aquele homem alemão básico, e os dois terão um rotina comum e amorosa. Nada dramático ou colorido, apenas comum.

Porém nossa governanta é amante de Shakespeare e Wagner, e quase corre o risco de pôr tudo a perder quando, em uma viagem ao Rio de Janeiro, descobre e se deslumbra com a cidade e sua natureza exuberante. Neste momento, ponto alto do livro, Fraulein literalmente tem um orgasmo, apenas por estar em contato com a natureza, em seu modo mais primitivo. Porém, logo o sentimento é reprimido.

E sim, mesmo com toda a sua racionalidade, recriminando o modo de ser dos brasileiros, Fraulein se apaixona pelo menino Carlos, daí o subtítulo do livro – Idílio – como nos livros românticos alemães. Em seus pensamentos, ela quase consegue colocar Carlos no lugar no noivo imaginário.

O final deixo para quem quiser ler, mas é um livro fundamental da literatura nacional, tanto quanto Memórias Póstumas de Brás Cubas, ou Capitães da Areia, neste livro, Mario de Andrade traz delicadeza e brasilidade, ao tratar das relações burguesas de início de século, além de criar uma das personagens mais fortes do universo literário brasileiro.

Recomendação explicita!

Anúncios