A Vida das Filhas do Último Tsar

Helen Rappaport

Tradução: Cássio de Arantes Leite

Editora Objetiva

Rio de Janeiro/RJ – 2016 – 1ª Edição

irmasromanov

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Se você acha que este livro é daqueles românticos que conta como as meninas se relacionavam, como eram as brincadeiras e as conversas. E também sobre as teorias da conspiração onde pelo menos uma das meninas de salvou. Melhor nem ler.

Ou antes, leia sim, pois vai ter uma noção muito melhor da época em viveram, das expectativas que havia não só sobre as meninas e sobre o pequeno herdeiro do trono, mas também sobre o Tsar e sua Tsarina.

A autora é uma historiadora, especializada na Russia,  ou seja, temos um livro que relata fatos documentados, cartas, testemunhos e documentos remanescentes de todo o período de vida desta família que viveu o fim da monarquia para os socialistas.

O livro começa bem antes das meninas, na verdade conta de quem a Tsarina é neta – a Rainha Vitória da Inglaterra, e como sua filha preferida, uma das últimas, se casou com um “alemão”, naquela época os países ainda tinham umas divisões e subdivisões, então não era exatamente Alemanha, mas era, tendeu? 🙂

A moça tem vários filhos, inclusive uma menina felizinha até a morte do pai, a neta predileta da Rainha Vitória que foi criada nos moldes da educação inglesa, praticamente espartana. Isso significa, sem frescura, sem ostentação, com muito exercício, e pouco tempo para gastar dinheiro. Também havia a questão da religião.

Mas aí a mocinha conhece o herdeiro do trono russo e se apaixona. E ele por ela.

Quem diria? A mocinha sem sal e sem oportunidades pega o melhor trono da época e ainda é um casamento por amor. Até aí tudo lindo, maravilhoso.

O que a autora vai esmiuçando é justamente como essa educação espartana, e este casamento feito com base em sentimentos atrapalhou tudo.

A Russia já estava em um caldeirão efervescente de problemas, fome e outras mazelas. Aí são coroados um moço que não tinha força suficiente para ser O tsar, e uma moça que só queria casar, ter filhos e cuidar da família e do marido amoroso.

É quase uma repetição da história da França. Quase. A própria tsarina, após a revolução de 1917 começar, chegou a temer o mesmo final de Maria Antonieta, mas o maridão ainda acreditava que todos veriam como ele amava e lutava pelo seu Império.

Bom, o livro é longo e vai contando como foi a pressão do mundo sobre a tsarina para ter o tal filho homem-herdeiro do trono, e como ela foi tendo problemas nos nervos, que pioravam a cada gravidez. E só nasciam meninas… Como foi o relacionamento com o “monstro” Rasputin. A hemofilia do pequeno, transmitida geneticamente pela coitada da tsarina, que depois foi julgada por isso, e também por ser alemã.

E isso vai dando uma tristeza na gente, porque o que fica é a aridez em que as meninas viveram. Pequenos pássaros presos em uma gaiola dourada. O casal que representava um império gigante não passava de uma dupla até mesmo medíocre dentro dos padrões de realeza. Na verdade, fica claro que ambos nasceram para ser daquela nobreza de fundo de quintal. O tal conde, ou visconde que nunca ninguém ouviu falar.

Foram cometendo erros administrativos, estratégicos e logísticos até serem presos. Aceitaram as decisões do recém empossado governo bolchevique, sempre acreditando que haviam feito o melhor pelo seu país e ninguém iria julgá-los ou matá-los.

Enfim.

Terminei o livro com aquela sensação de desanimo com a humanidade… Porque a gente fica romantizando a vida das princesas, e querendo acreditar que uma delas, ou todas fugiram do cárcere, seja num acordo ou num lance do destino – teorias da conspiração, mas ainda assim. O que temos é o relato do fim de uma era.

Valeu a pena ler por isso, para entender os desdobramentos históricos, o que a nobreza russa enxergava, e a população russa, assim como o resto do mundo. Das meninas mesmo, só relatos através de fotos, cartas, e da observação de quem sobreviveu e pôde contar o que viu.

Um livro quase obrigatório para acabar com as ilusões, e também para entender os jogos de poder de uma época nem tão distante assim.

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