Falar sobre minha relação com a comida é covardia.

chefs table

Venho de uma família luso italiana, então imagina… Além dos básicos arroz-com-feijão, feijão tropeiro, saladas variadas, passando por variadas formas de apresentar a carne, temos as macarronadas, lasagna e afins.

Minha mãe é uma doceira de dar gosto, tanto dos bolos e doces elaborados quanto daqueles tradicionalmente caseiros, como goiabada, ou doce de figo em calda.

Meus irmãos tem essa coisa de cozinhar, os três adoram experimentar e degustar seus pratos prediletos, indo além do conhecimento que minha mãe passou. Eu aprecio muito  tudo isso comendo, é claro.

E foi por causa do irmão metido a chef que acabei descobrindo uma série sensacional no Netflix: Chef‘s Table que, aliás, acabou de incluir a segunda temporada.

Primeiro, deixa eu falar da produção do programa: no mínimo, primorosa. Cada episódio apresenta um chef top top do mundo, aí mostra opiniões de críticos e colegas, mostra o cara ou moça fazendo sua mágica, andando pelos mercados, e principalmente, mostra a região que a pessoa vive. Seja em São Paulo com Alex Atala, ou em um vale perdido da Eslovênia, ou mesmo na Cidade do México, temos uma fotografia lindíssima, pontuada por uma trilha sonora também super delicada.

Só por isso já vale assistir. Mas ainda tem mais, o episódio conta como o cara chegou entre os primeiros, formação, influencias, trajetória, etc. E sempre, SEMPRE, mostra algum drama pessoal. Aquilo que foi o algo a mais, o que fez a pessoa realmente apreciar o momento atual de super sucesso.

Eu sei, há uma certa estranheza nestes chefs. Como podem cobrar aquele absurdo por um tantinho assim de comida. Assistindo, a gente começa a entender que, como em qualquer especialidade, existem aqueles que são vanguarda, visionários que enxergam, não apenas alguns passos a frente, mas muitos e muitos passos além.

Parecem arrogantes, mas devemos lembrar que o arrogante cobra para si um título que não possui de fato, estes caras podem se achar os melhores, porque são. Você começa a entender os preconceitos, as cobranças, a busca pela inovação, e o que verá pela frente em termos de culinária.

Se temos as Fashion week para determinar o que vai ser moda na próxima estação, estes chefs nos mostram as tendencias do que será comida elegante, ou cozinhar elegantemente.

Comida elegante atualmente é aquela que representa a cultura do seu povo, o sabor, a textura, as cores dos seus antepassados. A preocupação com o produtor local, que traz o alimento orgânico, que produz à moda antiga.

A gente aprende que, antigamente se plantava o milho junto com o feijão, porque milho tira o nitrogênio do solo, mas o feijão devolve, equilibrando o solo e mantendo a natureza estável e apta para a manutenção do ecossistema.

A produção impecável da Netflix apresenta os pratos principais de cada chef ao final do episódio, e parecem quadros ou esculturas, verdadeiras obras de arte a serem apreciadas não apenas pela estética ou pelo sabor, mas também por toda a história e valorização da cultura que trazem.

Apesar de não ser uma das produções mais cultuadas e comentadas, Chef’s Table merece respeito, e merece ser assistida com carinho. Mais de uma vez no caso de alguns episódios.

Estes chefs tão cultuados provocam, desmistificam, desvirtuam apresentações de pratos tão essenciais, como o arroz-com-feijão brasileiro, ou o iogurte indiano. E serei sincera, sou enjoadinha para comer, e nem tudo me atrai, mas vê-los falar de suas criações culinárias, manipulando os ingredientes na frente da câmera, com uma apresentação tão charmosa… Passo a entender ainda mais porque minha mãe sempre fez questão de uma mesa bem arrumada. Com toalhas limpas e pratos combinandinho.

Fiquei com desejo de entrar em um dos restaurantes apresentados e apreciar esta cozinha tão pensada, e principalmente, tão de vanguarda, que curiosamente se volta para o passado, para o modo de fazer dos nossos bisavós, para entender como era o sabor real dos produtos. Como utilizam a tecnologia atual para  nos fazer apreciar os variados tipos de milho ou de pimenta.

Cada episódio é uma aula, ou são várias aulas, de história, de cultura, de agricultura, de culinária, de geografia, e principalmente, de superação pessoal. Porque estas pessoas se tornaram esse sucesso, só talento? Perseverança? Dinheiro?

Depois do segundo episódio você começa a perceber as similaridades entre eles: curiosidade, paixão, apreço pelo novo, provocação, amor, teimosia, e principalmente, uma relação essencial com a comida enquanto história de vida. Conexão com a família, e com o próprio passado.

Rapaz! A série é tão boa que vou assistir de novo, e também vou comer, porque ficar vendo comida e depois ficar falando dela, dá uma fome que vou te falar! 🙂 😉

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