pensei e pesei muito a questão de falar da itália.
ainda tenho reticencias sobre os italianos com quem trabalhei por um ano e meio.
mas quero pensar que sou uma pessoa um pouco mais evoluída e não vou julgá-los por seu preconceito para comigo.
mas vou falar que não penso muito em voltar a ver a itália, pelo menos não por hora.
portugal, então… menos ainda.
apenas por duas cidades italianas ainda suspiro: veneza e firenze.
de firenze falo outro dia mas veneza…aaah veneza.
considero esta cidade um marco no mundo, não deveria pertencer a nenhum país. por sua singularidade, por ser sonho e realidade o tempo todo.

a primeira visão de Veneza foi como uma miragem. ver a cidade flutuando nas águas, sob sol forte, com o cheiro de maresia.
me senti entrando em um livro qualquer de contos de fadas.
a cidade formada por um arquipélago lá no norte da costa italiana teve seu inicio de forma meio nebulosa, fala-se de pescadores e de refugiados. isso por volta do séc V.
data oficial da fundação: 25 de março.
foi por mais de um milênio capital da Sereníssima Republica de Veneza. o que é muito poético, já que a cidade pousa serena sobre o mar.
o significado do seu nome é incerto, sendo o mais provável a conexão com a palavra venetus – mar azul.
terra de Vivaldi e Tintoretto, além de Marco Polo, claro.
falar de monumentos em Veneza é tolice, porque a cidade por si, e seus labirintos de becos e vielas, além dos óbvios canais, já é um monumento.
mas, claro, alguns itens são obrigatórios, todos podendo ser estudados em qualquer site de viagem.
os que me impressionaram?
o Palazzo Ducalle, a piazza de San Marco e sua Basílica com mosaicos sensacionais, e a ponte Rialto.

Infelizmente fiquei apenas um dia e meio, e não pude vivenciar esta cidade de fato, por isso quero voltar.
não entrei em nenhum dos lugares fabulosos que vi, e sua atmosfera envolvente e sedutora.
na verdade, naqueles momentos fiquei muito triste.
como se o peso daquele ar fosse maior, como se as historias dos turistas, vendedores, e comerciantes estivessem me falando mais do que podiam ou deviam.
acredito muito que a energia das pessoas permanece nos lugares, isso não tem nada a ver com religião.
apenas ciência. energia pura e simplesmente.
e sim, a energia daquela cidade mexeu demais comigo.

Sua riqueza cultural atual só espelha a grandeza desta cidade que foi importante ponto de encontro entre mercado ocidental e oriental no período medieval ou até antes disso, e foi assim até sei lá quando, e aí fico imaginando seus navegadores e mercadores andando por aquelas ruas, as fantasias e máscaras do carnaval.
Daí sua arquitetura tão similar à oriental, seus mosaicos lindíssimos acompanhados de colunatas e volutas tão ocidentais.
por estar tão perto da cultura oriental, veneza se veste de mistério, e mesmo hoje, com tanta tecnologia e globalização, não há como negar. esta cidade é feminina, volúvel e misteriosa.

Se Roma, para mim, é o macho, militar, conquistador. Veneza é a mulher sedutora, que quer e deve ser conquistada devagar, sem pressa e sem medo.

já falei do silencio?
então, eu que nem fazia questão do passeio de gondola, fui porque minhas companheiras de viagem queriam, e.
foi sensacional.

saímos do grande canal, e passamos por baixo da ponte dos suspiros. até aí, ok, lindo mas tinhas outras gondolas, muita gente na piazza, vários barcos e gondôlas, etc.
após a ponte dos suspiros, tudo rareia. as vozes, os barcos. os sons.
é como se vc entrasse em um sonho silencioso.
apenas se ouve a marola da água no casco do barco. e o silencio.
os casarões coloridos e envelhecidos, outras gondolas ao longe.
o musgo nas paredes, pequenas pontes.

as muitas, dezenas de pequenas janelas.
bandeiras;
portas dignas de um antiquário.
floreiras. roupas secando no varal.
o poético e o prosaico convivendo harmoniosamente, sem dó.
sem dor.
mesmo os barcos a motor passam devagar e saborosamente.
o sol forte fica escondido pelos muitos prédios juntinhos. e as sombras emprestam um ar medieval aos palazzos deteriorados pelo tempo e pelo mar.
e ficamos nós três mudas, extasiadas, ouvindo as poucas contribuições do nosso gondoleiro.
entrando num mundo milenar, sereno e peculiar.

posso garantir que após a passagem por esta cidade não fui a mesma.
nem poderia ser.

é claro que, estando em roma, joguei a moedinha na fontana di trevi, para poder voltar um dia, mas para onde quero mesmo ir, é para a Sereníssima Venezia.

e é assim que me despeço por hoje.